O que é a hepatectomia

Hepatectomia é a cirurgia de retirada de parte do fígado. Pode variar de uma ressecção menor (um único segmento hepático) a uma hepatectomia maior (três ou mais segmentos, como a hepatectomia direita ou esquerda) — a extensão depende do tamanho, número e localização das lesões, e da reserva funcional do fígado remanescente. O fígado é um dos poucos órgãos capazes de regenerar seu volume original em poucas semanas, o que torna essa cirurgia possível mesmo em ressecções extensas, desde que bem planejada.

Principais indicações
1
Tumores malignos
Carcinoma hepatocelular (CHC), metástases colorretais, colangiocarcinoma intra-hepático
2
Lesões benignas volumosas
Adenoma hepático (especialmente >5cm, pelo risco de sangramento e transformação maligna), hemangioma gigante sintomático
3
Doação em vida
Retirada de parte do fígado de um doador saudável para transplante — veja o artigo sobre transplante hepático

Assim como discuti em relação ao câncer gástrico e colorretal, a pergunta central deste artigo é: a via de acesso — aberta, laparoscópica ou robótica — muda o resultado da cirurgia hepática? É o que os maiores estudos já publicados testaram diretamente.

Caso ilustrativo · Carcinoma hepatocelular em fígado cirrótico

Paciente com carcinoma hepatocelular (CHC) em fígado cirrótico, submetido a embolização pré-operatória do tumor e, na sequência, a hepatectomia direita por videolaparoscopia. As imagens abaixo mostram o planejamento por tomografia, um momento da cirurgia e a peça cirúrgica após a ressecção.

Tomografia axial evidenciando carcinoma hepatocelular após embolização em fígado cirrótico
AngioTC de abdome superior — planejamento pré-operatório, CHC pós-embolização
Imagem intraoperatória de hepatectomia direita por videolaparoscopia
Hepatectomia direita por videolaparoscopia — momento da ressecção
Peça cirúrgica: lobo hepático direito ressecado contendo carcinoma hepatocelular
Peça cirúrgica — lobo hepático direito ressecado
Peça cirúrgica seccionada mostrando o carcinoma hepatocelular no interior do parênquima hepático
Peça seccionada — o carcinoma hepatocelular no interior do parênquima

Minimamente invasiva ou aberta? O que os estudos randomizados mostram

Dois ensaios clínicos randomizados são hoje a referência mais sólida sobre esse tema em cirurgia hepática.

O estudo OSLO-COMET, conduzido na Noruega, randomizou 280 pacientes com metástases hepáticas colorretais entre hepatectomia laparoscópica (133) e aberta (147). O desfecho principal foi complicações pós-operatórias:1

Desfecho Laparoscopia Cirurgia aberta
Complicações pós-operatórias 19% 31% (p=0,021)
Tempo de internação 53 horas 96 horas (p<0,001)
Mortalidade em 90 dias 0 1 paciente
Margens cirúrgicas e sangramento Sem diferença estatística entre os grupos

O estudo ORANGE II PLUS, publicado no Journal of Clinical Oncology em 2024 e conduzido em 16 centros europeus, randomizou 332 pacientes submetidos a hemi-hepatectomia (retirada de metade do fígado) entre via laparoscópica e aberta:2

O que isso significa na prática: os dois maiores estudos randomizados já conduzidos em hepatectomia mostram que a via minimamente invasiva reduz complicações e tempo de internação, sem comprometer o resultado oncológico — nem a sobrevida, nem a qualidade da ressecção.1,2

Robótica ou laparoscópica?

O ROC'N'ROLL, publicado em 2024 na Lancet Regional Health – Europe, é até hoje o único ensaio clínico randomizado comparando diretamente robótica e laparoscopia em hepatectomia por tumor maligno. Randomizou 80 pacientes (41 robótica, 39 laparoscopia) em um único centro na Alemanha, com avaliação cega do desfecho:3

1

Qualidade de vida (desfecho primário)

Escala de funcionamento do questionário EORTC QLQ-C30 aos 90 dias: 74,3 (robótica) vs 79,6 (laparoscopia) — sem diferença significativa (p=0,547).

2

Complicações

Índice de Complicação Abrangente: 8,9 vs 15,5 (p=0,137, não significativo). Sem diferença relevante entre as técnicas.

3

Conversão para cirurgia aberta

5% (robótica) vs 10% (laparoscopia) — sem diferença estatística (p=0,426).

4

Margem cirúrgica, tempo operatório, sangramento e internação

Ressecção R0 em 98% dos casos em ambos os grupos; tempo operatório, perda sanguínea e tempo de internação comparáveis entre as técnicas.

Um ponto de honestidade científica

O estudo de melhor qualidade metodológica disponível não encontrou diferença relevante entre robótica e laparoscopia em nenhum desfecho clínico importante.3 Estudos retrospectivos, sem randomização, às vezes sugerem vantagens maiores para a robótica — mas tendem a superestimar diferenças reais. A plataforma importa menos do que a experiência da equipe cirúrgica com a técnica e o planejamento individualizado do caso.

Caso ilustrativo · Adenoma hepático volumoso

Paciente com adenoma hepático maior que 5cm no setor lateral esquerdo do fígado — indicação cirúrgica pelo tamanho da lesão, que aumenta o risco de sangramento espontâneo. Tratado por setorectomia lateral esquerda por videolaparoscopia.

Imagem intraoperatória de setorectomia lateral esquerda por videolaparoscopia
Setorectomia lateral esquerda por videolaparoscopia — momento da ressecção
Abdome do paciente no pós-operatório mostrando as pequenas incisões da cirurgia minimamente invasiva
Resultado das incisões — quatro pequenos portais, sem grande corte abdominal
Peça cirúrgica: setor lateral esquerdo do fígado contendo grande adenoma hepático
Peça cirúrgica — setor lateral esquerdo com adenoma >5cm

Por que a experiência da equipe cirúrgica é decisiva

A hepatectomia é uma cirurgia de alta exigência técnica: exige controle vascular preciso (o fígado recebe dois terços do seu sangue pela veia porta e um terço pela artéria hepática), conhecimento detalhado da anatomia segmentar e capacidade de reagir rapidamente a um sangramento inesperado. Isso torna o volume de casos da equipe um fator de segurança mensurável.

Uma revisão sistemática com metanálise bayesiana, reunindo 20 estudos e 248.707 pacientes submetidos a hepatectomia, comparou desfechos entre centros de alto, médio e baixo volume cirúrgico:4

Na prática: ao considerar onde operar, o volume de hepatectomias realizadas pela equipe é uma pergunta legítima e relevante — tão importante quanto a escolha entre laparoscopia, robótica ou cirurgia aberta.4

Recuperação acelerada: o protocolo ERAS na cirurgia hepática

Um estudo prospectivo com 1.049 pacientes avaliou a aplicação das recomendações da Enhanced Recovery After Surgery (ERAS) Society para cirurgia hepática, comparando pacientes tratados antes e depois da implementação do protocolo:5

O achado reforça uma mensagem central: ERAS e cirurgia minimamente invasiva são complementares, não concorrentes. Juntos, atuam em frentes diferentes da recuperação — um na técnica de acesso, o outro em todo o cuidado perioperatório.

O que isso significa, na prática, para você

A via de acesso é uma decisão técnica, caso a caso. Número, tamanho e localização das lesões, presença de cirrose ou hipertensão portal, e cirurgias abdominais prévias pesam mais na escolha entre laparoscopia, robótica ou cirurgia aberta do que preferência estética.

Experiência da equipe é um fator de segurança mensurável. Os dados de volume-desfecho mostram uma diferença real e relevante em mortalidade — vale perguntar sobre o volume de hepatectomias da equipe que vai operar.

Doença hepática de base muda o planejamento. Em pacientes com cirrose, como no primeiro caso apresentado, a avaliação da reserva funcional hepática e estratégias como embolização pré-operatória fazem parte do planejamento cirúrgico. Se você busca entender melhor esse contexto, veja também os artigos sobre carcinoma hepatocelular e cirrose e hipertensão portal.

Prof. Dr. Edmond Le Campion
Cirurgião do Aparelho Digestivo · Fígado, Pâncreas e Vias Biliares
Doutor pela USP · Professor Adjunto UFG · CRM-GO 13872
Doutorado FMUSP Professor UFG Cirurgia Hepatobiliar Hepatectomia Minimamente Invasiva Goiânia · Anápolis

Diagnóstico de lesão hepática com indicação de cirurgia?

O Prof. Dr. Edmond Le Campion realiza hepatectomia minimamente invasiva em Goiânia e Anápolis, com avaliação individualizada da melhor via de acesso para cada caso.