Os sinais que aparecem no corpo, mas nascem por dentro

As imagens abaixo são de uma paciente que acompanhei, com cirrose hepática avançada. Dois achados marcavam o exame físico: a ascite — a "barriga d'água" —, com acúmulo progressivo de líquido dentro do abdome, e veias superficiais dilatadas e tortuosas, bem visíveis, espalhando-se a partir do umbigo pela parede abdominal — um sinal clássico chamado caput medusae ("cabeça de medusa", em referência à mitologia grega).1

Água na barriga (ascite) com circulação colateral venosa superficial no abdome de paciente com cirrose hepática, caso acompanhado pelo Dr. Edmond Le Campion em Goiânia
Água na barriga (ascite) com circulação colateral venosa superficial ("cabeça de medusa") — dois sinais físicos clássicos de hipertensão portal avançada por cirrose hepática.
Angiotomografia mostrando extensa rede de circulação colateral no abdome por hipertensão portal, avaliação de cirurgião hepático em Goiânia
Reconstrução de angiotomografia da mesma paciente, evidenciando a extensa rede de vasos colaterais tortuosos formada dentro da cavidade abdominal para desviar o sangue represado.

Esse tipo de veia não nasceu ali por acaso. Ela é a manifestação visível, na pele, de uma reorganização inteira da circulação sanguínea dentro do abdome — o corpo abrindo "desvios" para escoar um sangue que não consegue mais passar pelo fígado com facilidade. Entender por que isso acontece é entender a própria essência da cirrose.

O que é a hipertensão portal, na prática

Todo o sangue que sai do intestino, baço e pâncreas passa primeiro pelo fígado antes de seguir para o coração, através de uma veia chamada veia porta. Na cirrose, o tecido hepático normal é progressivamente substituído por fibrose e nódulos de regeneração — o que torna o fígado mais rígido e aumenta a resistência à passagem desse sangue.1 O resultado é um represamento: a pressão dentro do sistema porta sobe, condição chamada hipertensão portal.

Quando essa pressão ultrapassa um determinado limiar — o que a literatura mais recente define como um gradiente de pressão venosa hepática igual ou maior que 10 mmHg — a hipertensão portal passa a ser considerada clinicamente significativa, e o risco de complicações graves aumenta de forma expressiva.2 É nesse ponto que o corpo começa a abrir rotas alternativas de circulação — as veias colaterais — na tentativa de aliviar essa pressão. As mais conhecidas são as varizes de esôfago e de estômago, mas o mesmo processo pode formar a circulação colateral visível na parede abdominal, como no caso mostrado acima.

Por que a hipertensão portal é perigosa

O problema é que essas rotas alternativas não foram desenhadas pelo corpo para suportar esse volume de sangue sob pressão. Isso torna a hipertensão portal responsável pelas complicações mais graves e mais temidas da cirrose:1,3

⚠ O momento da "descompensação"

Enquanto o fígado consegue compensar o dano, a cirrose pode ser praticamente silenciosa — é a chamada fase compensada. O primeiro episódio de sangramento, ascite ou encefalopatia marca a transição para a fase descompensada, um ponto de virada real: a partir daí, a sobrevida sem tratamento definitivo cai de forma expressiva, e a avaliação para transplante hepático passa a ser uma prioridade, não mais uma possibilidade distante.1,2

Como se diagnostica e se mede a gravidade

A avaliação combina exame físico, exames de imagem e escores validados que orientam desde o acompanhamento ambulatorial até a fila de transplante:

Ferramenta O que avalia
Elastografia hepática Mede a rigidez do fígado por ultrassom especializado — método não invasivo cada vez mais usado para rastrear hipertensão portal clinicamente significativa.
Endoscopia digestiva alta Identifica varizes de esôfago e estômago e classifica o risco de sangramento.
Escore de Child-Pugh Classifica a gravidade da cirrose (A, B ou C) com base em bilirrubina, albumina, tempo de protrombina, ascite e encefalopatia.
Escore MELD Baseado em bilirrubina, creatinina e INR — é o critério objetivo usado para priorizar pacientes na fila de transplante hepático.

Tratamento: do manejo clínico ao transplante

O tratamento acompanha a gravidade da doença. Para hipertensão portal clinicamente significativa, o uso precoce de betabloqueadores não seletivos (como o carvedilol) reduz a pressão portal e previne a primeira descompensação — um estudo randomizado publicado no Lancet mostrou redução significativa no risco de descompensação com essa estratégia.4 Em casos de varizes de alto risco ou sangramento já estabelecido, procedimentos endoscópicos e, em casos selecionados, o TIPS (uma espécie de "desvio" criado por radiologia intervencionista dentro do próprio fígado) fazem parte do arsenal terapêutico.2

Mas quando a cirrose já está descompensada — como no caso desta paciente, cuja circulação colateral já havia se tornado extensa — o tratamento clínico deixa de ser suficiente para mudar a trajetória da doença. É nesse cenário que o transplante hepático deixa de ser uma opção entre outras e passa a ser, para muitos pacientes, o único caminho capaz de devolver anos de vida com qualidade.

Fígado cirrótico explantado durante cirurgia de transplante hepático realizada pelo Dr. Edmond Le Campion em Goiânia
Fígado cirrótico explantado da mesma paciente durante o transplante — a superfície nodular e endurecida é a marca característica da cirrose em estágio avançado.

Essa foto é o fígado que foi retirado dessa paciente durante o transplante — a superfície irregular, nodular, endurecida, é exatamente o que a fibrose e a regeneração desorganizada do tecido hepático produzem ao longo dos anos. É esse órgão, incapaz de exercer suas funções e gerando a hipertensão portal descrita ao longo deste texto, que o transplante substitui.

O que isso significa, na prática, para você

1

Barriga d'água e veias visíveis não são só uma questão estética

Esses achados merecem avaliação médica — podem ser o primeiro sinal visível de uma doença hepática que já está em estágio avançado.

2

Cirrose compensada pede acompanhamento regular, não só reação a sintomas

Elastografia, endoscopia de rastreamento e exames laboratoriais periódicos identificam a hipertensão portal antes da primeira descompensação — quando ainda há mais opções de tratamento.

3

O primeiro episódio de sangramento, ascite ou confusão mental é um ponto de virada

É o sinal de que a avaliação para transplante hepático precisa entrar na conversa, e não pode ser adiada.

4

Avaliação especializada muda o desfecho

Da escolha do momento certo do betabloqueador ao encaminhamento para transplante, o acompanhamento com equipe experiente em doença hepática avançada é o que transforma prognóstico em resultado real — como nesta paciente.

Prof. Dr. Edmond Le Campion
Cirurgião do Aparelho Digestivo · Fígado, Pâncreas e Vias Biliares
Doutor pela USP · Professor Adjunto UFG · CRM-GO 13872
Doutorado FMUSP Professor UFG Transplante Hepático Cirurgia Oncológica Goiânia · Anápolis

Diagnóstico de cirrose ou sinais de hipertensão portal? O momento da avaliação faz toda a diferença.

O Prof. Dr. Edmond Le Campion realiza avaliação de doença hepática avançada e transplante de fígado em Goiânia e Anápolis.