O que é o transplante de fígado

O transplante de fígado é a substituição cirúrgica de um fígado doente por um órgão saudável, proveniente de um doador falecido ou de um doador vivo compatível. Realizado pela primeira vez em humanos há mais de 60 anos, deixou de ser um procedimento experimental e é hoje considerado o padrão de tratamento para pacientes com doença hepática avançada, insuficiência hepática aguda grave e determinados tumores do fígado, quando não há outra alternativa terapêutica eficaz.1

Apesar da complexidade técnica, os resultados em centros especializados são consistentes: a sobrevida do paciente gira em torno de 90% no primeiro ano e permanece acima de 70% em cinco anos — números que colocam o transplante hepático entre os tratamentos de maior impacto na medicina moderna.1

O transplante de fígado não é o fim de um tratamento — é o recomeço. A grande maioria dos pacientes transplantados retoma vida normal, com capacidade de trabalhar, praticar atividades físicas e, em mulheres em idade fértil, engravidar com segurança.1

Quando o transplante é indicado

O transplante é indicado para doenças hepáticas crônicas ou agudas graves que não respondem ao tratamento clínico, e para determinados tumores do fígado em que a cirurgia de ressecção não é possível.1,7

Cirrose hepática avançada

Por hepatite B, hepatite C, consumo de álcool, doença hepática gordurosa (esteato-hepatite) ou causas autoimunes — a indicação mais comum em todo o mundo.

Carcinoma hepatocelular

Câncer primário do fígado dentro dos critérios de Milão, tratado com transplante em cerca de 20% a 40% dos casos nos grandes centros.

Insuficiência hepática aguda grave

Falência súbita do fígado por intoxicações, vírus ou reações medicamentosas — situação de emergência com indicação de transplante em caráter de urgência.

Doenças colestáticas e metabólicas

Cirrose biliar primária, colangite esclerosante primária, doença de Wilson, hemocromatose e outras doenças hereditárias do fígado.

Um capítulo à parte é o do colangiocarcinoma perihilar irressecável: seguindo protocolo rigoroso de seleção com quimiorradioterapia neoadjuvante, o transplante alcança sobrevida de até 68% em 5 anos em centros de referência — transformando uma doença antes considerada incurável em uma condição tratável para pacientes selecionados. Já escrevemos sobre esse tema em detalhe em nosso artigo sobre colangiocarcinoma.8

Critérios de Milão para carcinoma hepatocelular

CritérioDefinição
Tumor únicoAté 5 cm de diâmetro, sem invasão vascular
Múltiplos nódulosAté 3 nódulos, cada um com no máximo 3 cm
Doença extra-hepáticaAusente — sem metástases ou invasão vascular macroscópica

Pacientes dentro desses critérios têm resultados pós-transplante equivalentes aos de pacientes transplantados por outras causas. Hoje, diversos centros discutem expansões moderadas desses critérios, sempre equilibrando o benefício individual com o uso responsável de um órgão escasso.2

Fígado explantado com cirrose hepática avançada por hepatite C, durante transplante de fígado — caso do acervo do Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgião de transplante hepático em Goiânia e Anápolis.
Fígado cirrótico explantado de paciente com cirrose por hepatite C — superfície nodular característica da cirrose em estágio avançado.
Peça de fígado cirrótico seccionada evidenciando carcinoma hepatocelular (círculo amarelo) em paciente com cirrose por hepatite C — caso do Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgião hepatobiliar e de transplante em Goiânia.
Mesmo fígado seccionado: carcinoma hepatocelular (círculo amarelo) desenvolvido sobre cirrose — indicação de transplante dentro dos critérios de Milão.

Como funciona a fila de espera

A avaliação para transplante é um processo multidisciplinar rigoroso, envolvendo hepatologistas, cirurgiões, cardiologistas, psicólogos e nutricionistas. O objetivo é confirmar a indicação, excluir contraindicações e preparar clinicamente o paciente para a cirurgia.

Após aprovação, o paciente é inscrito na lista de espera do Sistema Nacional de Transplantes. A posição na fila não depende do tempo de espera, e sim da gravidade da doença, medida pelo escore MELD (Model for End-stage Liver Disease) — calculado a partir de três exames de sangue simples: bilirrubina, creatinina e INR (tempo de protrombina).4,5

O princípio por trás do MELD é conhecido como "o mais grave primeiro": pacientes com maior risco de morte nos próximos três meses recebem prioridade no recebimento do órgão — não quem está há mais tempo na fila. Esse sistema, adotado no início dos anos 2000, substituiu critérios baseados apenas em tempo de espera e reduziu significativamente a mortalidade dos pacientes mais graves.4,5

Doador vivo ou doador falecido

Existem dois caminhos possíveis para o transplante:

O transplante com doador vivo é uma alternativa fundamental para reduzir o tempo de espera e a mortalidade na fila — especialmente relevante em um país como o Brasil, que foi pioneiro nessa técnica: os primeiros transplantes hepáticos com doador vivo do mundo foram descritos em 1989 pela equipe do Prof. Silvano Raia, em São Paulo, e a modalidade já salvou dezenas de milhares de vidas globalmente nos 35 anos seguintes.3

Como é a cirurgia

O transplante de fígado é uma cirurgia de grande porte, com duração média de 6 a 12 horas. O fígado doente é removido e o enxerto do doador é implantado no mesmo local, com reconstrução cuidadosa dos vasos sanguíneos (veia porta, artéria hepática, veia cava) e das vias biliares.1

1

Hepatectomia do fígado doente

Remoção cuidadosa do fígado nativo, preservando as estruturas vasculares e biliares que serão reconectadas ao novo órgão.

2

Implante do enxerto

Reconstrução vascular (veia cava, veia porta, artéria hepática) e biliar, restabelecendo o fluxo sanguíneo e a drenagem da bile.

3

Recuperação em UTI

Monitorização intensiva no pós-operatório imediato. A alta hospitalar geralmente ocorre entre 10 e 20 dias após a cirurgia, dependendo da evolução clínica.

Fígado saudável de doador falecido preparado na mesa de banco antes do implante — transplante de fígado realizado pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgião de transplante hepático em Goiânia e Anápolis.
Fígado saudável do doador falecido, preparado na mesa de banco antes do implante no receptor.
Fígado transplantado e reperfundido no receptor, já posicionado na cavidade abdominal — cirurgia de transplante hepático realizada pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgião de transplante de fígado em Goiânia e Anápolis. Caso do acervo pessoal do cirurgião.
Fígado do doador já implantado e reperfundido no receptor, com coloração e perfusão restabelecidas. Cirurgia realizada pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion — caso do acervo pessoal do cirurgião.

Resultados: o que a evidência mostra

Sobrevida do paciente após transplante de fígado
~90%
Sobrevida em 1 ano
~75%
Sobrevida em 5 anos
60–65%
Sobrevida em 10 anos

Esses resultados variam conforme a idade do paciente, a doença de base e a experiência do centro transplantador — reforçando por que a escolha de um serviço com volume e experiência consolidados em cirurgia hepatobiliar e transplante é decisiva para o resultado final.1,6

Imunossupressão e vida após o transplante

Após o transplante, o paciente precisará usar medicamentos imunossupressores pelo resto da vida, para evitar a rejeição do novo fígado. O acompanhamento médico regular — com ajustes periódicos de dose e monitorização de função hepática e renal — é fundamental para o sucesso a longo prazo.1

Quando buscar avaliação para transplante

Pacientes com cirrose descompensada (ascite, encefalopatia, sangramento por varizes), icterícia progressiva, diagnóstico de carcinoma hepatocelular ou piora progressiva da função hepática devem ser avaliados por um serviço de transplante o quanto antes — o momento certo de encaminhamento influencia diretamente as chances de um transplante bem-sucedido.

O que o paciente precisa saber

O transplante de fígado é uma das cirurgias de maior complexidade técnica da medicina — mas também uma das que produzem resultados mais transformadores quando bem indicada, bem planejada e realizada em um centro com experiência estabelecida em cirurgia hepatobiliar e transplante.

Se você ou um familiar recebeu diagnóstico de cirrose avançada, carcinoma hepatocelular ou outra doença hepática grave, a avaliação especializada precoce é o que determina, muitas vezes, se o transplante será uma opção viável no momento certo.

Prof. Dr. Edmond Le Campion
Cirurgião do Aparelho Digestivo · Fígado, Pâncreas e Vias Biliares
Fellowship em Transplante de Fígado e Pâncreas — UNIFESP · Doutor pela USP · Professor Adjunto UFG · CRM-GO 13872 · RQE 6651
Doutorado FMUSP Professor UFG Transplante de Fígado Cirurgia Hepatobiliar Goiânia · Anápolis

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O Prof. Dr. Edmond Le Campion é um dos poucos cirurgiões da região Centro-Oeste com Fellowship em Transplante de Fígado — um diferencial raro em Goiás.