Poucas notícias geram tanta ansiedade quanto ouvir que a cirurgia indicada é "a de Whipple". É natural: trata-se da duodenopancreatectomia, um procedimento que remove e reconstrói simultaneamente quatro órgãos — pâncreas, duodeno, vias biliares e, por vezes, parte do estômago. É, de fato, uma das operações mais desafiadoras da cirurgia abdominal. Mas é também uma cirurgia extremamente bem estudada, com décadas de refinamento técnico, e cujo risco pode ser reduzido de forma mensurável pela escolha certa de onde e com quem operar.

O que é a duodenopancreatectomia

A duodenopancreatectomia remove, em bloco, a cabeça do pâncreas, o duodeno, a vesícula biliar, parte da via biliar e, em algumas técnicas, parte do estômago (antrectomia) — ou, na variante que preserva o piloro, mantendo todo o estômago. Após a retirada, o cirurgião reconstrói o trânsito digestivo com três novas conexões: entre o pâncreas remanescente e o intestino (pancreatojejunostomia), entre a via biliar e o intestino (hepaticojejunostomia) e entre o estômago e o intestino (gastrojejunostomia ou duodenojejunostomia).

As indicações mais comuns incluem:

Muitos desses diagnósticos começam da mesma forma: uma icterícia obstrutiva (pele e olhos amarelados) sem dor, que levou à investigação por imagem. Se esse for o seu caso, veja também nosso artigo sobre icterícia obstrutiva e sobre o câncer de pâncreas.

Peça cirúrgica de duodenopancreatectomia (cirurgia de Whipple) com cabeça do pâncreas, duodeno e via biliar ressecados em bloco — Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgião de pâncreas em Goiânia e Anápolis
Figura 1 — Peça cirúrgica da duodenopancreatectomia (cirurgia de Whipple). Cabeça do pâncreas, duodeno, colédoco distal e estômago distal ressecados em bloco, para garantir margens livres (R0). A análise histopatológica da peça confirma o diagnóstico, avalia as margens e orienta a indicação de quimioterapia adjuvante. Cirurgia realizada pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion.

Por que o volume do hospital e do cirurgião mudam o risco

Esta é, possivelmente, a informação mais importante deste artigo. Um dos estudos mais citados da literatura cirúrgica mundial, publicado no New England Journal of Medicine em 2002, analisou a relação entre o volume de cirurgias de um hospital e a mortalidade operatória em 14 procedimentos de alto risco nos Estados Unidos1. Entre todos eles, a ressecção pancreática foi o procedimento com a maior diferença absoluta de mortalidade entre hospitais de baixo e de alto volume.

16,3%
Mortalidade em hospitais de muito baixo volume de cirurgias pancreáticas
3,8%
Mortalidade em hospitais de muito alto volume de cirurgias pancreáticas

Essa diferença — a maior entre os 14 procedimentos estudados — ajuda a explicar por que sociedades de cirurgia no mundo todo recomendam que a duodenopancreatectomia seja realizada em centros e por equipes com volume relevante de casos e estrutura de terapia intensiva e radiologia intervencionista para manejar eventuais complicações.

E a via minimamente invasiva? Uma análise honesta da evidência

Honestidade científica

Diferente da pancreatectomia distal — onde a evidência já confirma vantagem da via minimamente invasiva mesmo em câncer —, na duodenopancreatectomia os resultados dos estudos clínicos randomizados até o momento são mais cautelosos. É importante que o paciente saiba disso antes de perguntar "dá pra fazer por vídeo?".

O estudo LEOPARD-2, publicado na Lancet Gastroenterology & Hepatology, comparou a duodenopancreatectomia laparoscópica com a aberta em um desenho multicêntrico e randomizado2. O estudo foi interrompido antes do previsto por um comitê independente de segurança.

LEOPARD-2 TRIAL
Ensaio clínico randomizado, fase 2/3, interrompido precocemente por segurança · Lancet Gastroenterology & Hepatology, 2019 · 105 pacientes randomizados (de 136 planejados)
10% vs 2%
Mortalidade relacionada a complicações (grupo laparoscópico vs. aberto; IC amplo, p=0,20)
10 vs 8 dias
Tempo até recuperação funcional — sem vantagem para o vídeo
Semelhante
Taxas de fístula pancreática e complicações grau III+

O número de eventos foi pequeno e o intervalo de confiança amplo — ou seja, não é estatisticamente conclusivo que a via laparoscópica seja mais perigosa. Mas o sinal foi forte o suficiente para que o comitê de segurança interrompesse o estudo, e esse é exatamente o tipo de resultado que não deve ser minimizado.

Mais recentemente, o estudo EUROPA, publicado também na Lancet Regional Health – Europe em 2024, comparou a duodenopancreatectomia robótica (não laparoscópica) com a aberta, em centros de alto volume3.

EUROPA TRIAL
Ensaio clínico randomizado, estágio 2b · Lancet Regional Health – Europe, 2024 · 81 pacientes randomizados, 62 analisados
Semelhante
Morbidade global em 90 dias (índice CCI)
58,6% vs 33,3%
Complicações específicas do pâncreas grau B/C, maiores no grupo robótico (p=0,046)
34,4% vs 6,0%
Gastroparesia pós-operatória, maior no grupo robótico (p=0,005)
431 vs 367 min
Tempo cirúrgico, mais longo na via robótica (p=0,021)
Sem diferença
Ressecção R0 e número de linfonodos

Chama atenção que a mortalidade em 90 dias tenha sido numericamente menor no grupo robótico (0% vs. 9,1%) — mas a amostra é pequena demais para que essa diferença seja considerada confiável. Ao mesmo tempo, as complicações específicas do pâncreas e a gastroparesia foram mais frequentes na via robótica, além de um tempo cirúrgico mais longo e custo mais alto.

Nossa leitura da evidência atual: a cirurgia aberta continua sendo o padrão-ouro da duodenopancreatectomia na grande maioria dos centros, inclusive os de referência mundial. A via robótica é uma alternativa real e em evolução, mas ainda deve ser reservada a centros de altíssimo volume, com equipe e estrutura consolidadas, e discutida caso a caso — nunca oferecida como vantagem automática. Novos estudos maiores, como o PORTAL trial, estão em andamento e podem mudar esse cenário nos próximos anos; atualizaremos este artigo conforme novos resultados forem publicados.

Essa é, aliás, uma diferença importante em relação à pancreatectomia distal (veja nosso artigo sobre pancreatectomia distal minimamente invasiva): nem toda cirurgia do aparelho digestivo evolui no mesmo ritmo para a via minimamente invasiva, e um cirurgião bem informado precisa saber — e dizer ao paciente — quando a evidência ainda não sustenta essa escolha.

Visão intraoperatória de duodenopancreatectomia aberta com linfadenectomia regional e vasos mesentéricos preservados — Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgia do pâncreas em Goiás
Figura 2 — Duodenopancreatectomia aberta com linfadenectomia regional. Visão intraoperatória após a ressecção da cabeça do pâncreas: os grandes vasos mesentéricos são preservados após dissecção anatômica minuciosa. A via aberta segue como padrão-ouro desta operação. Cirurgia realizada pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion, em Goiás.

Recuperação e cuidados pós-operatórios

A internação típica varia de 7 a 14 dias, a depender da técnica e da evolução. O acompanhamento pós-operatório é rigoroso, com monitoramento de drenos (para detecção precoce de fístula pancreática), função digestiva e, quando indicado, protocolos de recuperação acelerada (ERAS) para cirurgia pancreática, que reduzem o tempo de internação sem aumentar complicações quando aplicados em centros experientes.

Prof. Dr. Edmond Le Campion
Cirurgião do Aparelho Digestivo · Fígado, Pâncreas e Vias Biliares
Doutor pela USP · Professor Adjunto UFG · CRM-GO 13872
Doutorado FMUSP Professor UFG Transplante Hepático · UNIFESP Cirurgia Pancreática de Alta Complexidade Goiânia · Anápolis

Recebeu a indicação de cirurgia de Whipple?

O Prof. Dr. Edmond Le Campion avalia cada caso individualmente, em Goiânia e Anápolis, para explicar a cirurgia, os riscos reais e o plano de cuidado.

Referências

  1. Birkmeyer JD, Siewers AE, Finlayson EVA, et al. Hospital Volume and Surgical Mortality in the United States. New England Journal of Medicine. 2002;346(15):1128-1137.
  2. van Hilst J, de Rooij T, Bosscha K, et al. Laparoscopic versus open pancreatoduodenectomy for pancreatic or periampullary tumours (LEOPARD-2): a multicentre, patient-blinded, randomised controlled phase 2/3 trial. The Lancet Gastroenterology & Hepatology. 2019.
  3. Zwart MJW, et al. Robotic versus open partial pancreatoduodenectomy (EUROPA): a randomised controlled stage 2b trial. The Lancet Regional Health – Europe. 2024.
  4. van Hilst J, Korrel M, de Rooij T, et al. The Landmark Series: Minimally Invasive Pancreatic Resection. Annals of Surgical Oncology. 2021.