O diagnóstico que ninguém espera receber

Imaginemos um paciente do sexo masculino, 63 anos, ex-tabagista, que há três meses percebeu perda progressiva de peso — cerca de oito quilos — acompanhada de uma dor epigástrica difusa que irradia para o dorso. Nos últimos meses, também desenvolveu diabetes mellitus de início recente, sem qualquer histórico familiar de diabetes. Ao procurar atendimento, o exame de tomografia computadorizada de abdome com contraste revela uma massa hipodensa na cabeça do pâncreas, com dilatação da via biliar e do ducto pancreático principal — o chamado sinal da dupla via.

A primeira pergunta que esse paciente faz ao médico é: "Isso tem cura?" E a resposta honesta, baseada em probabilidade, é: depende fundamentalmente de quando o diagnóstico foi feito. Perceba que, ao contrário de outros tumores do aparelho digestivo, o câncer de pâncreas raramente produz sintomas nas fases iniciais — e quando finalmente os produz, a doença já se encontra avançada em até 80% dos casos.1

Esta assimetria entre biologia agressiva e silêncio clínico é o maior obstáculo ao seu tratamento. Entender essa doença — seus fatores de risco, seus sinais de alerta e suas opções terapêuticas — é um exercício que pode, literalmente, salvar vidas.

"O câncer de pâncreas não é incurável porque não temos tratamento. É incurável com frequência porque chega tarde demais ao cirurgião. A única chance de cura passa pela ressecção cirúrgica — e a janela para essa cirurgia é estreita."

O que é o adenocarcinoma ductal pancreático?

O pâncreas é uma glândula de localização retroperitoneal com funções exócrinas — produção de enzimas digestivas — e endócrinas — secreção de insulina e glucagon. O adenocarcinoma ductal pancreático (ADCP) origina-se das células epiteliais dos ductos exócrinos e representa 85 a 90% de todos os tumores malignos do pâncreas.1 Quando nos referimos genericamente a "câncer de pâncreas", estamos, na maioria das vezes, falando desta neoplasia específica.

Os dados epidemiológicos são sombrios. Em 2022, foram registrados aproximadamente 511.000 novos casos mundialmente, com 467.000 mortes — uma taxa de mortalidade que acompanha quase que perfeitamente sua incidência.1 Nos Estados Unidos, a sobrevida em cinco anos melhorou de 4% para 13% nas últimas duas décadas — progresso real, mas ainda insuficiente diante da magnitude da doença.1 O Brasil acompanha tendência global de crescimento da incidência, impulsionado pelo aumento da obesidade, do diabetes mellitus e do envelhecimento populacional.

Histologicamente, o ADCP é caracterizado por estruturas glandulares infiltrativas imersas em um abundante estroma desmoplástico — um microambiente tumoral fibrótico, hipovascular e imunocomprometido que dificulta a penetração de quimioterápicos e protege o tumor do sistema imunológico.1 Esta ecologia tumoral hostil explica, em grande parte, a resistência terapêutica que caracteriza a doença.

Ilustração anatômica do pâncreas mostrando relação com artéria mesentérica superior, veia porta e tronco celíaco — cirurgia pâncreas Goiânia, Prof. Dr. Edmond Le Campion
Figura 1 — Anatomia do pâncreas e suas relações vasculares críticas. O pâncreas está intimamente relacionado à artéria mesentérica superior (vermelha), veia porta (azul escuro), veia mesentérica superior e tronco celíaco. Esta proximidade anatômica é o principal determinante da ressecabilidade no câncer de pâncreas e explica a complexidade técnica da pancreaticoduodenectomia (cirurgia de Whipple) realizada em Goiânia pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion.

Quais são os fatores de risco?

Diferentemente do carcinoma hepatocelular — onde a cirrose hepática domina como fator de risco único —, o câncer de pâncreas resulta da convergência de múltiplos fatores modificáveis e não modificáveis. Reconhecê-los é fundamental para identificar os grupos que se beneficiam de vigilância ativa:

⚠️ Atenção ao diabetes de início recente em maiores de 50 anos

A instalação de diabetes mellitus sem causa aparente em pacientes acima de 50 anos pode ser a primeira manifestação de um câncer de pâncreas subclínico. Embora a maioria desses pacientes tenha diabetes tipo 2 convencional, a presença de perda de peso associada, dor abdominal ou qualquer alteração pancreática à imagem deve motivar investigação prioritária.

Quando suspeitar? Os sinais de alerta

O pâncreas está profundamente inserido no retroperitônio, distante das superfícies viscerais que normalmente geram sintomas precoces. Esta localização anatômica explica o silêncio clínico da doença em suas fases iniciais. Entretanto, perceba que certos padrões clínicos devem acender o alerta diagnóstico:

Dor abdominal epigástrica com irradiação dorsal — não é uma dor cólica, mas uma dor surda, persistente, frequentemente pior ao deitar e aliviada ao inclinar o tronco para frente. Quando presente, reflete acometimento retroperitoneal e envolvimento do plexo celíaco — um sinal de doença localmente avançada.

Icterícia obstrutiva — é a manifestação clínica mais reconhecida dos tumores da cabeça do pâncreas, resultante da compressão extrínseca do colédoco. A icterícia indolor, de instalação progressiva, em paciente com mais de 50 anos e sem cálculos biliares conhecidos, é câncer de pâncreas até que se prove o contrário.

Perda de peso não intencional — frequentemente superior a 10% do peso corporal. Resulta da combinação de anorexia, má absorção por insuficiência exócrina pancreática e caquexia paraneoplásica mediada por citocinas inflamatórias.1

Esteatorreia e má digestão — fezes oleosas, que flutuam, com odor fétido, refletem insuficiência exócrina pancreática. Estão presentes em 70 a 90% dos pacientes ao diagnóstico.1

Diabetes mellitus de início recente — como discutido, pode preceder o diagnóstico de ADCP em meses a anos.

Como é feito o diagnóstico?

Diferentemente do carcinoma hepatocelular — que pode ser diagnosticado por critérios puramente radiológicos em contexto de cirrose — o câncer de pâncreas, em geral, requer confirmação histológica antes do início da quimioterapia neoadjuvante ou paliativa.1 Esta é uma distinção clínica importante.

Tomografia computadorizada com protocolo pancreático — é o exame de referência para detecção, estadiamento vascular e planejamento cirúrgico. Deve ser realizada com fases arterial pancreática e venosa portal, com reconstruções multiplanares. O ADCP tipicamente aparece como uma lesão hipoatenuante — mais escura — em relação ao parênquima pancreático normal bem perfundido.1

Ressonância magnética com colangiopancreatografia (MRCP) — complementa a TC, especialmente na detecção de metástases hepáticas pequenas e na avaliação dos ductos pancreático e biliar. É particularmente útil quando os achados tomográficos são inconclusivos.1

Ecoendoscopia (EUS) com biopsia guiada — método de eleição para obtenção de material histológico, especialmente em lesões pequenas ou com alta desmoplasia que limitam a biologia do material. A biópsia por agulha fina (EUS-FNB) geralmente requer menos passagens e supera a aspiração (EUS-FNA) na caracterização arquitetural das glândulas neoplásicas.1

CA 19-9 — o marcador tumoral mais utilizado no acompanhamento do ADCP. Entretanto, não deve ser utilizado como método de rastreamento ou diagnóstico: sua sensibilidade e especificidade são insuficientes para esse fim, e é completamente não informativo em 10 a 15% dos pacientes que não expressam o antígeno de Lewis.1 Sua utilidade maior reside no monitoramento de resposta ao tratamento e na detecção precoce de recidiva.

Teste genético germinativo — a partir das recomendações do NCCN e das principais sociedades oncológicas, todos os pacientes com câncer de pâncreas devem ser submetidos a teste genético germinativo, independentemente do histórico familiar.1 Esta recomendação tem implicação terapêutica direta: portadores de mutações em BRCA1, BRCA2 ou PALB2 se beneficiam de tratamento com inibidores de PARP.

Estadiamento: o que determina o tratamento

O estadiamento do ADCP é centrado em um conceito fundamental: a ressecabilidade. Diferentemente de outros tumores do trato digestivo, o câncer de pâncreas é classificado não apenas pela extensão tumoral, mas pela sua relação anatômica com os grandes vasos viscerais — veia mesentérica superior, veia porta, artéria mesentérica superior e tronco celíaco. Esta relação define o que é tecnicamente ressecável, borderline ou irressecável:1

I
Ressecável

Tumor separado dos grandes vasos por gordura ou tecido normal. Ressecção cirúrgica primária com intenção curativa.

II
Borderline Ressecável

Contato tumoral com <50% da circunferência da artéria mesentérica superior. Quimioterapia neoadjuvante para aumentar chance de R0.

III
Localmente Avançado

Tumor encarcera artéria mesentérica superior ou tronco celíaco. Quimioterapia de indução — conversão em até 60% dos casos com FOLFIRINOX.

IV
Metastático

Metástases hepáticas, pulmonares ou peritoneais. Quimioterapia sistêmica paliativa — FOLFIRINOX, GnP ou NALIRIFOX.

Perceba a assimetria de prognóstico: em pacientes submetidos a ressecção cirúrgica completa (R0) com quimioterapia adjuvante, a sobrevida mediana supera 54 meses com mFOLFIRINOX.4 No cenário metastático, com a melhor quimioterapia disponível, essa sobrevida cai para 9 a 11 meses.2,3,7 Esta diferença de mais de quatro anos não é trivial — ela é o argumento mais poderoso para que o diagnóstico seja feito enquanto a doença ainda é ressecável.

Quais são as opções de tratamento?

O tratamento do ADCP é essencialmente multidisciplinar e deve ser discutido em reunião de equipe com cirurgiões, oncologistas clínicos, radiologistas e patologistas. A estratégia terapêutica depende fundamentalmente do estágio da doença.

Cirurgia com intenção curativa — a ressecção é a única opção de cura disponível. Para tumores da cabeça do pâncreas, o procedimento padrão é a pancreaticoduodenectomia (cirurgia de Whipple). Para tumores do corpo e cauda, realiza-se pancreatectomia distal com esplenectomia. A operação deve ser realizada em centros de alto volume, onde a correlação entre volume cirúrgico e sobrevida está bem estabelecida na literatura.1 A margem livre de pelo menos 1 mm é considerada clinicamente relevante para o controle local da doença.1

Visão intraoperatória de pancreaticoduodenectomia com linfadenectomia radical para câncer de pâncreas — Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgião pâncreas Goiânia
Figura 2 — Pancreaticoduodenectomia (cirurgia de Whipple) com linfadenectomia radical. Visão intraoperatória após ressecção da cabeça do pâncreas com tumor. São visíveis os grandes vasos mesentéricos preservados após dissecção anatômica minuciosa com linfadenectomia regional. A cirurgia foi realizada pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion, especialista em cirurgia do pâncreas em Goiânia e Anápolis — Goiás. A radicalidade oncológica com margem R0 é o principal fator prognóstico nessa operação.
Peça cirúrgica de duodenopancreatectomia para câncer de pâncreas — pancreaticoduodenectomia realizada pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgião pâncreas Goiânia
Figura 3 — Peça cirúrgica da duodenopancreatectomia (cirurgia de Whipple). A peça inclui a cabeça do pâncreas, o duodeno, o colédoco distal e o estômago distal — ressecados em bloco para garantir margens oncológicas livres (R0). A análise histopatológica da peça é fundamental para confirmar o diagnóstico, graduar o tumor, avaliar margens e indicar quimioterapia adjuvante. Cirurgia realizada pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion — referência em cirurgia oncológica do pâncreas em Goiás.

Quimioterapia adjuvante — após ressecção curativa, a quimioterapia adjuvante com mFOLFIRINOX (5-fluorouracil, ácido folínico, irinotecano e oxaliplatina em doses modificadas) demonstrou superioridade sobre a gemcitabina isolada no estudo PRODIGE 24/ACCORD, com sobrevida global mediana de 54,4 meses versus 35,0 meses — um benefício absoluto expressivo e duradouro.4 Para pacientes não elegíveis ao mFOLFIRINOX, gemcitabina mais capecitabina representa alternativa validada.1

Doença borderline e localmente avançada — a quimioterapia de indução com mFOLFIRINOX ou gemcitabina mais nab-paclitaxel (GnP) precede a reavaliação cirúrgica. Em centros de referência com expertise em técnicas vasculares, até 60% dos casos localmente avançados podem ser convertidos a ressecáveis após quimioterapia de indução intensiva.1

Doença metastática — três esquemas de quimioterapia têm evidência de fase III no cenário de primeira linha:

Terapia direcionada por biomarcadores — para pacientes com mutações germinativas em BRCA1, BRCA2 ou PALB2, o tratamento com platina na primeira linha pode ser seguido de manutenção com o inibidor de PARP olaparib. O estudo POLO demonstrou prolongamento significativo da sobrevida livre de progressão nessa população selecionada.5 Para o subgrupo com instabilidade de microssatélites (MSI-H), estimado em 1 a 2% dos casos, a imunoterapia com inibidores de checkpoint produz respostas duráveis.1

O horizonte científico: vacinas de mRNA e inibidores de KRAS

Talvez nenhuma outra área da oncologia digestiva tenha vivenciado avanços tão disruptivos nos últimos anos quanto o câncer de pâncreas. De fato, dois desenvolvimentos merecem destaque especial pela profundidade do impacto potencial.

O primeiro é o das vacinas personalizadas de mRNA com neoantigênios. Um estudo de fase I publicado na revista Nature em 2023 demonstrou que vacinas de mRNA individualizadas, combinadas a imunoterapia (atezolizumabe) e quimioterapia (mFOLFIRINOX) no cenário adjuvante, induziram respostas robustas e duráveis de linfócitos T CD8+ em um subgrupo de pacientes após ressecção.6 Análises de seguimento confirmaram que essas células T têm longevidade excepcional e capacidade de transição para memória imunológica — características fundamentais de uma resposta antitumoral eficaz.1 O estudo randomizado de fase III (IMCODE003) está em andamento.

O segundo avanço é o da inibição direta do KRAS oncogênico. Mutações no gene KRAS estão presentes em 85 a 95% dos casos de ADCP — tornando-o o alvo molecular mais prevalente na doença.1 O agente daraxonrasibe (RMC-6236), um inibidor pan-RAS(ON), demonstrou taxas de resposta objetiva de ~55% em combinação com GnP em dados preliminares de fase I/II em ADCP metastático. Ensaios randomizados de fase III (RASolute-302 e RASolute-303) estão em andamento.1 Evidentemente, estamos ainda em território experimental — mas pela primeira vez temos ferramentas moleculares direcionadas ao principal driver oncogênico desta doença.

Rastreamento em grupos de alto risco

Perceba o seguinte: o estudo multicêntrico CAPS (Cancer of Pancreas Screening) demonstrou que a vigilância ativa em indivíduos de alto risco detecta a grande maioria dos cânceres em estágio I, com sobrevida significativamente superior à dos casos diagnosticados fora de programa de rastreamento.8 Esta evidência tem implicação prática direta: identificar quem deve ser rastreado é uma responsabilidade clínica, não uma opção.

Os grupos que se beneficiam de vigilância estruturada incluem: portadores de mutações germinativas de alto risco (BRCA2, CDKN2A, ATM, STK11, PALB2); indivíduos com dois ou mais parentes de primeiro grau com câncer de pâncreas; portadores de pancreatite hereditária; e pacientes com síndrome de Lynch. O protocolo recomendado pela maioria das diretrizes consiste em ecoendoscopia anual + ressonância magnética/MRCP, a partir dos 50 anos de idade ou 10 anos antes do caso mais jovem na família.1

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Prof. Dr. Edmond Le Campion

Cirurgião Geral e do Aparelho Digestivo · Doutor pela FMUSP/USP
Fellowship em Transplante de Fígado e Pâncreas — UNIFESP
Professor Adjunto e Chefe do Departamento de Cirurgia — UFG

CRM-GO 13872 · RQE 6651

Referências bibliográficas

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