É comum o diagnóstico chegar de forma incidental: uma tomografia pedida por outro motivo mostra uma lesão cística ou sólida no corpo ou na cauda do pâncreas. O paciente nunca ouviu falar em "pancreatectomia distal" e a primeira imagem que vem à cabeça é a de uma cirurgia aberta, com um corte extenso no abdômen e semanas de recuperação. Essa imagem está desatualizada. Nos últimos anos, uma série de estudos clínicos randomizados — o padrão mais rigoroso de evidência em medicina — mostrou que a pancreatectomia distal por vídeo (laparoscópica ou robótica) é segura, inclusive para tumores malignos, e está associada a uma recuperação mais rápida.

Ressonância magnética de abdome mostrando tumor da cauda do pâncreas com indicação de pancreatectomia distal — Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgião de pâncreas em Goiânia e Anápolis
Figura 1 — Ressonância magnética de abdome. Tumor da cauda do pâncreas, junto ao hilo do baço, em paciente posteriormente submetido a pancreatectomia distal pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion. A localização da lesão e sua relação com os vasos esplênicos orientam o planejamento da cirurgia.

O que é a pancreatectomia distal

A pancreatectomia distal é a remoção da porção esquerda do pâncreas — corpo e cauda —, geralmente acompanhada da retirada do baço (esplenectomia), embora em casos selecionados seja possível preservá-lo. É um procedimento tecnicamente diferente e, de modo geral, menos complexo do que a duodenopancreatectomia (cirurgia de Whipple), que remove a cabeça do pâncreas junto ao duodeno.

As indicações mais frequentes incluem:

Aspecto intraoperatório de tumor da cauda do pâncreas durante pancreatectomia distal — Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgia do pâncreas em Goiânia
Figura 2 — Aspecto intraoperatório do tumor da cauda do pâncreas, após a exposição do pâncreas e o reparo da glândula com fita cirúrgica.
Grampeamento do pâncreas para ressecção de tumor da cauda pancreática — pancreatectomia distal pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion em Goiás
Figura 3 — Grampeamento do pâncreas para a ressecção do tumor. A linha de grampos sela o pâncreas remanescente; é por ela que pode ocorrer a fístula pancreática no pós-operatório.

A via minimamente invasiva é segura? O que mostra o estudo LEOPARD

A pergunta mais relevante para quem vai operar não é apenas "cabe fazer por vídeo?", mas "isso muda meu resultado?". O estudo LEOPARD, publicado na Annals of Surgery, foi o primeiro ensaio clínico randomizado e multicêntrico a comparar diretamente a pancreatectomia distal minimamente invasiva com a aberta1.

LEOPARD TRIAL
Ensaio clínico randomizado, multicêntrico, cego ao paciente · Annals of Surgery, 2019 · 108 pacientes em 14 centros

Comparação entre pancreatectomia distal minimamente invasiva (MIDP) e aberta (ODP):

4 vs 6 dias
Tempo até recuperação funcional (p<0,001)
150 vs 400 mL
Perda de sangue no intraoperatório (p<0,001)
6 vs 8 dias
Tempo de internação (p<0,001)
6% vs 20%
Gastroparesia pós-operatória (p=0,04)
8% vs 25%
Necessidade de sonda de alimentação (p=0,02)
8%
Taxa de conversão para cirurgia aberta

As complicações maiores e a mortalidade foram semelhantes entre os dois grupos — ou seja, a via minimamente invasiva não compromete a segurança, e ainda reduz sangramento, tempo de internação e algumas complicações específicas. Uma análise posterior do mesmo estudo, publicada no British Journal of Surgery, mostrou ainda que a via minimamente invasiva foi pelo menos tão custo-efetiva quanto a aberta, com qualidade de vida comparável e uma tendência (não significativa) a maior satisfação com o resultado estético2.

E em caso de câncer? O estudo DIPLOMA

Resultados favoráveis em doenças benignas não respondem à pergunta mais importante para um paciente oncológico: operar por vídeo compromete o resultado do tratamento do câncer? O estudo DIPLOMA, publicado na Lancet Regional Health – Europe em 2023, foi desenhado especificamente para responder a essa pergunta, incluindo apenas pacientes com adenocarcinoma ductal do pâncreas3.

DIPLOMA TRIAL
Ensaio clínico randomizado internacional de não-inferioridade · Lancet Regional Health – Europe, 2023 · 258 pacientes em 35 centros, 12 países

Comparação específica em câncer de pâncreas (corpo/cauda), via minimamente invasiva vs. aberta:

73% vs 69%
Ressecção radical R0 (não-inferioridade confirmada, p=0,039)
22 vs 23
Linfonodos removidos (mediana, p=0,89)
40 vs 39 meses
Sobrevida global (p=0,94)
44 vs 45 meses
Sobrevida livre de doença (p=0,88)
18% vs 22%
Eventos adversos graves (p=0,45)

Os resultados foram, na prática, equivalentes entre as duas vias — tanto na qualidade oncológica da cirurgia quanto na sobrevida em médio prazo. É um resultado tranquilizador e, até o momento, a melhor evidência disponível de que a via minimamente invasiva não compromete o tratamento do câncer de pâncreas de corpo/cauda quando bem indicada.

Em resumo: diferente de outras cirurgias oncológicas do aparelho digestivo em que a equivalência entre vídeo e cirurgia aberta já era bem estabelecida, no câncer de pâncreas essa confirmação é relativamente recente — e reforça por que a decisão sobre a via de acesso deve ser sempre individualizada, com base em evidência atualizada.

Preservação do baço: quando é possível

Em lesões benignas ou de baixo potencial de malignidade, pode ser possível preservar o baço durante a pancreatectomia distal, evitando os riscos infecciosos associados à esplenectomia (principalmente em crianças e adultos jovens). A decisão depende da localização da lesão, de sua relação com os vasos esplênicos e, sobretudo, da natureza benigna ou maligna da doença — em câncer, a esplenectomia costuma ser mantida como parte do estadiamento oncológico adequado.

Peça cirúrgica de pancreatectomia distal com esplenectomia em bloco — tumor da cauda do pâncreas operado pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgião de pâncreas em Goiânia e Anápolis
Figura 4 — Peça cirúrgica. Corpo e cauda do pâncreas com o tumor, ressecados em bloco com o baço. Cirurgia realizada pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion.

Recuperação: o que esperar

Com a via minimamente invasiva, a expectativa — respaldada pelos números do LEOPARD trial acima — é de internação em torno de 5 a 7 dias, com retomada da alimentação precoce e menor necessidade de suporte nutricional por sonda. A principal complicação a ser monitorada em qualquer pancreatectomia, independente da via, é a fístula pancreática (extravasamento de secreção pancreática pela linha de grampeamento), que é acompanhada com exames de sangue e, quando necessário, drenos.

Prof. Dr. Edmond Le Campion
Cirurgião do Aparelho Digestivo · Fígado, Pâncreas e Vias Biliares
Doutor pela USP · Professor Adjunto UFG · CRM-GO 13872
Doutorado FMUSP Professor UFG Transplante Hepático · UNIFESP Cirurgia Pancreática Minimamente Invasiva Goiânia · Anápolis

Encontrou uma lesão no pâncreas em um exame de imagem?

O Prof. Dr. Edmond Le Campion avalia cada caso individualmente, em Goiânia e Anápolis, para definir a melhor conduta — cirúrgica ou não.

Referências

  1. de Rooij T, van Hilst J, van Santvoort H, et al. Minimally Invasive Versus Open Distal Pancreatectomy (LEOPARD): A Multicenter Patient-Blinded Randomized Controlled Trial. Annals of Surgery. 2019;269(1):2-9.
  2. van Hilst J, de Rooij T, Klompmaker S, et al. Costs and quality of life in a randomized trial comparing minimally invasive and open distal pancreatectomy (LEOPARD trial). British Journal of Surgery. 2019.
  3. DIPLOMA Trial Group. Minimally invasive versus open distal pancreatectomy for resectable pancreatic cancer (DIPLOMA): an international randomised non-inferiority trial. The Lancet Regional Health – Europe. 2023.