É comum o diagnóstico chegar de forma incidental: uma tomografia pedida por outro motivo mostra uma lesão cística ou sólida no corpo ou na cauda do pâncreas. O paciente nunca ouviu falar em "pancreatectomia distal" e a primeira imagem que vem à cabeça é a de uma cirurgia aberta, com um corte extenso no abdômen e semanas de recuperação. Essa imagem está desatualizada. Nos últimos anos, uma série de estudos clínicos randomizados — o padrão mais rigoroso de evidência em medicina — mostrou que a pancreatectomia distal por vídeo (laparoscópica ou robótica) é segura, inclusive para tumores malignos, e está associada a uma recuperação mais rápida.
O que é a pancreatectomia distal
A pancreatectomia distal é a remoção da porção esquerda do pâncreas — corpo e cauda —, geralmente acompanhada da retirada do baço (esplenectomia), embora em casos selecionados seja possível preservá-lo. É um procedimento tecnicamente diferente e, de modo geral, menos complexo do que a duodenopancreatectomia (cirurgia de Whipple), que remove a cabeça do pâncreas junto ao duodeno.
As indicações mais frequentes incluem:
- Neoplasias císticas — IPMN (neoplasia mucinosa papilar intraductal) de ducto secundário com critérios de risco, cistoadenoma mucinoso (MCN), cistoadenoma seroso sintomático ou de crescimento.
- Tumores neuroendócrinos do corpo ou cauda do pâncreas.
- Adenocarcinoma (câncer) do corpo ou cauda do pâncreas — historicamente a indicação mais temida, e justamente onde a evidência científica mais recente trouxe segurança para a via minimamente invasiva.
- Pancreatite crônica focal limitada ao corpo/cauda, em casos selecionados.
A via minimamente invasiva é segura? O que mostra o estudo LEOPARD
A pergunta mais relevante para quem vai operar não é apenas "cabe fazer por vídeo?", mas "isso muda meu resultado?". O estudo LEOPARD, publicado na Annals of Surgery, foi o primeiro ensaio clínico randomizado e multicêntrico a comparar diretamente a pancreatectomia distal minimamente invasiva com a aberta1.
Comparação entre pancreatectomia distal minimamente invasiva (MIDP) e aberta (ODP):
As complicações maiores e a mortalidade foram semelhantes entre os dois grupos — ou seja, a via minimamente invasiva não compromete a segurança, e ainda reduz sangramento, tempo de internação e algumas complicações específicas. Uma análise posterior do mesmo estudo, publicada no British Journal of Surgery, mostrou ainda que a via minimamente invasiva foi pelo menos tão custo-efetiva quanto a aberta, com qualidade de vida comparável e uma tendência (não significativa) a maior satisfação com o resultado estético2.
E em caso de câncer? O estudo DIPLOMA
Resultados favoráveis em doenças benignas não respondem à pergunta mais importante para um paciente oncológico: operar por vídeo compromete o resultado do tratamento do câncer? O estudo DIPLOMA, publicado na Lancet Regional Health – Europe em 2023, foi desenhado especificamente para responder a essa pergunta, incluindo apenas pacientes com adenocarcinoma ductal do pâncreas3.
Comparação específica em câncer de pâncreas (corpo/cauda), via minimamente invasiva vs. aberta:
Os resultados foram, na prática, equivalentes entre as duas vias — tanto na qualidade oncológica da cirurgia quanto na sobrevida em médio prazo. É um resultado tranquilizador e, até o momento, a melhor evidência disponível de que a via minimamente invasiva não compromete o tratamento do câncer de pâncreas de corpo/cauda quando bem indicada.
Em resumo: diferente de outras cirurgias oncológicas do aparelho digestivo em que a equivalência entre vídeo e cirurgia aberta já era bem estabelecida, no câncer de pâncreas essa confirmação é relativamente recente — e reforça por que a decisão sobre a via de acesso deve ser sempre individualizada, com base em evidência atualizada.
Preservação do baço: quando é possível
Em lesões benignas ou de baixo potencial de malignidade, pode ser possível preservar o baço durante a pancreatectomia distal, evitando os riscos infecciosos associados à esplenectomia (principalmente em crianças e adultos jovens). A decisão depende da localização da lesão, de sua relação com os vasos esplênicos e, sobretudo, da natureza benigna ou maligna da doença — em câncer, a esplenectomia costuma ser mantida como parte do estadiamento oncológico adequado.
Recuperação: o que esperar
Com a via minimamente invasiva, a expectativa — respaldada pelos números do LEOPARD trial acima — é de internação em torno de 5 a 7 dias, com retomada da alimentação precoce e menor necessidade de suporte nutricional por sonda. A principal complicação a ser monitorada em qualquer pancreatectomia, independente da via, é a fístula pancreática (extravasamento de secreção pancreática pela linha de grampeamento), que é acompanhada com exames de sangue e, quando necessário, drenos.
Doutor pela USP · Professor Adjunto UFG · CRM-GO 13872
Encontrou uma lesão no pâncreas em um exame de imagem?
O Prof. Dr. Edmond Le Campion avalia cada caso individualmente, em Goiânia e Anápolis, para definir a melhor conduta — cirúrgica ou não.
Referências
- de Rooij T, van Hilst J, van Santvoort H, et al. Minimally Invasive Versus Open Distal Pancreatectomy (LEOPARD): A Multicenter Patient-Blinded Randomized Controlled Trial. Annals of Surgery. 2019;269(1):2-9.
- van Hilst J, de Rooij T, Klompmaker S, et al. Costs and quality of life in a randomized trial comparing minimally invasive and open distal pancreatectomy (LEOPARD trial). British Journal of Surgery. 2019.
- DIPLOMA Trial Group. Minimally invasive versus open distal pancreatectomy for resectable pancreatic cancer (DIPLOMA): an international randomised non-inferiority trial. The Lancet Regional Health – Europe. 2023.