O que é a gastrectomia

Gastrectomia é a cirurgia de retirada de parte (gastrectomia subtotal ou distal) ou de todo o estômago (gastrectomia total), seguida da reconstrução do trânsito digestivo. É o tratamento cirúrgico central do câncer gástrico — a indicação mais comum — mas também pode ser indicada em situações não oncológicas específicas, como úlcera péptica complicada refratária ao tratamento clínico ou tumores estromais (GIST) que não podem ser removidos por técnicas mais conservadoras.

Tipos de gastrectomia
1
Subtotal (distal)
Retirada da porção distal do estômago, preservando parte do órgão — indicada para tumores no terço médio/inferior
2
Total
Retirada completa do estômago, com reconstrução em Y de Roux — indicada para tumores proximais ou difusos
3
Linfadenectomia D2
Retirada dos linfonodos regionais associada — padrão oncológico para câncer gástrico avançado

Já discuti os sinais de alerta, o diagnóstico e o estadiamento do câncer gástrico em outro artigo. Aqui, o foco é a cirurgia em si: uma vez indicada a gastrectomia, a via de acesso muda a recuperação — mas será que muda o resultado oncológico? É essa pergunta que os maiores estudos randomizados em cirurgia gástrica já responderam.

Laparoscopia é tão segura quanto a cirurgia aberta?

Dois estudos clínicos randomizados multicêntricos, conduzidos em continentes diferentes, testaram exatamente essa pergunta em pacientes com câncer gástrico.

O estudo CLASS-01, conduzido na China e publicado na JAMA Surgery, randomizou 1.039 pacientes com câncer gástrico localmente avançado entre gastrectomia distal laparoscópica (519 pacientes) e aberta (520 pacientes). Os resultados de sobrevida em 5 anos:1

Desfecho (5 anos) Laparoscopia Cirurgia aberta
Sobrevida global 72,6% (IC 95% 69–77%) 76,3% (IC 95% 73–80%) — HR 1,17; IC 95% 0,93–1,48; p=0,19
Sobrevida — Estádio I 90,0% 88,5% (p=0,70)
Sobrevida — Estádio II 79,1% 84,5% (p=0,14)
Sobrevida — Estádio III 58,6% 59,5% (p=0,95)

O estudo LOGICA, conduzido na Holanda e publicado no Journal of Clinical Oncology, randomizou 211 pacientes (106 laparoscopia, 105 cirurgia aberta). O desfecho principal — tempo de internação — não mostrou diferença significativa entre as técnicas. Outros achados:2

O que isso significa na prática: os dois maiores estudos randomizados já conduzidos comparando laparoscopia e cirurgia aberta na gastrectomia por câncer não encontraram diferença estatisticamente significativa em sobrevida, margens cirúrgicas ou número de linfonodos ressecados.1,2 A gastrectomia minimamente invasiva, quando realizada por equipe experiente, preserva o resultado oncológico da cirurgia aberta.

O que os registros nacionais mostram, na prática real

Um achado interessante, publicado como seguimento do próprio estudo LOGICA na revista Annals of Surgery: apesar de o estudo randomizado não ter mostrado vantagem clara da laparoscopia sobre a cirurgia aberta, o registro cirúrgico nacional holandês (DUCA) mostrou que a adoção da gastrectomia laparoscópica saltou de 6% em 2012 para 82% em 2021 — e que, na prática clínica do mundo real, essa adoção veio acompanhada de redução real de complicações ao longo dos anos, à medida que mais cirurgiões ganharam experiência com a técnica.3

Um ponto de honestidade científica

Esse contraste — entre o resultado "neutro" do estudo randomizado e o ganho real observado depois, com a curva de aprendizado da técnica madura — é comum em cirurgia minimamente invasiva. Reforça que o benefício da laparoscopia não é automático: depende diretamente da experiência acumulada da equipe cirúrgica com a técnica, não apenas da tecnologia em si.

Robótica ou laparoscopia?

Uma metanálise de 2024, uma das maiores já publicadas sobre o tema, reuniu 86 estudos e 68.755 pacientes (20.894 operados por via robótica e 47.861 por laparoscopia convencional) comparando diretamente as duas plataformas na gastrectomia oncológica:4

1

Linfonodos ressecados e sangramento

Significativamente melhores no grupo robótico — mais linfonodos retirados e menos perda sanguínea (p<0,001 para ambos).

2

Tempo de internação e recuperação intestinal

Internação mais curta e retorno mais rápido da função intestinal no grupo robótico (p<0,001).

3

Conversão para cirurgia aberta e reoperação

Ambas menores na via robótica (conversão: OR 0,62, p=0,004; reoperação: OR 0,68, p=0,010).

4

Complicações gerais e graves

Menores na via robótica (complicações gerais: OR 0,82, p<0,001; complicações graves: OR 0,65, p<0,001).

5

Tempo cirúrgico e custo

Maiores na via robótica — as duas principais limitações práticas da plataforma hoje.

6

Margem cirúrgica, mortalidade, fístula e recorrência

Sem diferença estatística entre as duas técnicas.

Um ponto importante

Assim como na colectomia, nenhuma das duas plataformas substitui o julgamento cirúrgico e a técnica oncológica correta. A escolha entre laparoscopia e robótica depende do caso, da experiência da equipe e da disponibilidade da tecnologia — não é uma escolha "melhor versus pior" de forma absoluta.

Recuperação acelerada: o protocolo ERAS

Uma metanálise atualizada de 2025, reunindo 27 estudos randomizados e 3.274 pacientes, avaliou o protocolo ERAS (Enhanced Recovery After Surgery) aplicado à gastrectomia. Os resultados, comparados ao cuidado perioperatório tradicional:5

A combinação de cirurgia minimamente invasiva + protocolo ERAS é hoje o que mais se aproxima do padrão de cuidado ideal para gastrectomia eletiva: mesma segurança oncológica da cirurgia aberta, com recuperação mensuravelmente mais rápida e menos complicações.

O que isso significa, na prática, para você

A via de acesso é uma decisão técnica. Localização e extensão do tumor, cirurgias abdominais prévias e a experiência da equipe cirúrgica pesam mais na escolha entre laparoscopia, robótica ou cirurgia aberta do que preferência pessoal por "menos cicatriz".

Experiência da equipe importa tanto quanto a tecnologia. Como os dados de registro nacional mostram, o benefício real da técnica minimamente invasiva se consolida com a curva de aprendizado — vale perguntar sobre o volume de casos da equipe que vai operar.

A gastrectomia é uma etapa de um tratamento mais amplo. Para a maioria dos pacientes com câncer gástrico, a cirurgia se soma a quimioterapia perioperatória e acompanhamento oncológico estruturado. Se você ainda não leu, vale conferir o artigo sobre diagnóstico e tratamento do câncer gástrico para entender esse quadro mais completo.

Prof. Dr. Edmond Le Campion
Cirurgião do Aparelho Digestivo · Fígado, Pâncreas e Vias Biliares
Doutor pela USP · Professor Adjunto UFG · CRM-GO 13872
Doutorado FMUSP Professor UFG Cirurgia Oncológica Digestiva Gastrectomia Minimamente Invasiva Goiânia · Anápolis

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