O que é o câncer gástrico

O câncer gástrico é, na grande maioria dos casos, um adenocarcinoma — tumor que se origina nas células glandulares que revestem a mucosa do estômago. Em 2022, foram registrados no mundo aproximadamente 968.784 novos casos e 660.175 mortes pela doença, o que a torna a terceira causa de morte por câncer no planeta, atrás apenas dos tumores de pulmão e colorretal.1

É uma doença marcada por um paradoxo importante: quando diagnosticada em estágio inicial, as chances de cura são altas — mas a maioria dos pacientes só procura atendimento quando o tumor já está localmente avançado, porque os sintomas iniciais costumam ser inespecíficos ou ausentes.

"O câncer gástrico é, em grande parte, uma doença evitável. Três quartos dos casos no mundo estão ligados a uma infecção bacteriana que pode ser identificada e tratada décadas antes do diagnóstico do tumor."

Por que o câncer gástrico acontece

O principal fator de risco modificável para o câncer gástrico é a infecção crônica pela bactéria Helicobacter pylori. Um estudo recente projetou que, entre os nascidos em 2008–2017, 15,6 milhões de pessoas desenvolverão câncer gástrico ao longo da vida — e 76% desses casos são atribuíveis ao H. pylori, reforçando o enorme potencial preventivo de estratégias de rastreamento e erradicação da bactéria.2

Infecção por Helicobacter pylori

Principal causa modificável. A inflamação crônica da mucosa gástrica desencadeia uma sequência progressiva — gastrite, atrofia, metaplasia intestinal — que pode culminar em câncer.

Dieta e estilo de vida

Alimentos defumados, muito salgados ou conservados, tabagismo e consumo excessivo de álcool aumentam o risco de forma consistente em estudos populacionais.

Gastrite atrófica e metaplasia intestinal

Lesões pré-malignas que precedem o adenocarcinoma do tipo intestinal e justificam o acompanhamento endoscópico em pacientes de risco.

Síndromes hereditárias

Mutações no gene CDH1 causam o câncer gástrico difuso hereditário, indicação reconhecida de rastreamento familiar e, em casos selecionados, gastrectomia profilática.

Sinais de alerta

Procure avaliação médica diante de dor ou desconforto epigástrico persistente por mais de 2 a 3 semanas, saciedade precoce, perda de peso não intencional, anemia sem causa aparente, dificuldade para engolir ou sangramento digestivo (vômito com sangue ou fezes escurecidas).

Esses sintomas merecem investigação especialmente em pessoas acima de 40 anos ou com fatores de risco — o atraso diagnóstico é o principal determinante do pior prognóstico.

Classificação: por que a biologia do tumor importa

Do ponto de vista histológico, o câncer gástrico se divide classicamente em dois padrões pela classificação de Lauren: o tipo intestinal — mais associado ao H. pylori e à sequência gastrite-atrofia-metaplasia — e o tipo difuso, de células pouco coesas, com comportamento mais agressivo e maior associação a formas hereditárias.9

Mais recentemente, o mapeamento molecular do tumor revelou quatro subtipos moleculares distintos — associado ao vírus Epstein-Barr, com instabilidade de microssatélites (MSI), geneticamente estável e com instabilidade cromossômica —, cada um com implicações prognósticas e terapêuticas próprias.3 Esse avanço molecular é o que hoje permite selecionar terapias-alvo específicas para cada paciente.

BiomarcadorFrequência aproximadaImplicação terapêutica
HER2 positivo15 a 20% dos casosAdição de trastuzumabe à quimioterapia na doença avançada4
Claudina 18.2 positiva50 a 80% dos casosZolbetuximabe associado à quimioterapia de primeira linha7
Instabilidade de microssatélites (MSI-alta)10 a 20% dos casosExcelente resposta à imunoterapia isolada
PD-L1 (CPS elevado)VariávelMaior benefício da imunoterapia combinada à quimioterapia

O diagnóstico e o estadiamento

A confirmação diagnóstica é feita por endoscopia digestiva alta com biópsia, exame que permite visualizar diretamente a lesão e determinar seu tipo histológico. A partir daí, o estadiamento local e à distância é complementado por:

A pesquisa dos biomarcadores HER2, claudina 18.2, MSI e PD-L1 deve ser sistematicamente incorporada ao diagnóstico, pois direciona diretamente a escolha terapêutica na doença avançada.

Endoscopia digestiva alta evidenciando lesão neoplásica gástrica ulcerada — caso do acervo do Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgião oncológico do aparelho digestivo em Goiânia e Anápolis.
Aspecto endoscópico de neoplasia gástrica ulcerada, com biópsia confirmando adenocarcinoma. Caso do acervo do Prof. Dr. Edmond Le Campion.

O tratamento cirúrgico

A cirurgia com intenção curativa continua sendo o pilar do tratamento do câncer gástrico. O tipo de ressecção depende da localização e extensão do tumor:

Esquema ilustrativo da classificação das estações linfonodais do estômago (JGCA) dissecadas na linfadenectomia D2 do câncer gástrico — material do Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgião oncológico do aparelho digestivo em Goiânia e Anápolis.
Estações linfonodais do estômago segundo a classificação da Japanese Gastric Cancer Association (JGCA): grupo perigástrico (dissecção D1) e grupo extraperigástrico, acrescido na linfadenectomia D2.

Sempre que tecnicamente possível, a cirurgia é realizada por via minimamente invasiva — laparoscópica ou robótica —, com resultados oncológicos equivalentes aos da cirurgia aberta e os benefícios já conhecidos de menor sangramento, menos dor e recuperação mais rápida. Entre as duas técnicas minimamente invasivas, a evidência agregada de maior qualidade mostra que não há diferença na sobrevida entre a via robótica e a laparoscópica.

Gastrectomia robótica vs. laparoscópica — metanálise de 48 estudos (20.151 pacientes)
Sem diferença
Sobrevida global em 3 anos (p > 0,05)
+2,8
Linfonodos a mais dissecados, em média, na via robótica
~36 min
Tempo cirúrgico adicional da via robótica

Uma metanálise reunindo 48 estudos e mais de 20 mil pacientes comparou diretamente as duas técnicas e não encontrou diferença estatisticamente significativa entre elas em sobrevida global, complicações pós-operatórias, taxa de ressecção R0, mortalidade ou taxa de conversão. A via robótica associou-se a maior número de linfonodos dissecados, menor sangramento e alta hospitalar mais precoce, à custa de maior tempo cirúrgico.10 Um estudo randomizado unicêntrico chinês, publicado em 2024, chamou atenção ao relatar sobrevida livre de doença em 3 anos superior no grupo robótico (85,8% vs. 73,2%; p = 0,011) — um achado isolado que ainda precisa ser confirmado em ensaios multicêntricos, já que contrasta com a evidência agregada disponível até o momento.8 Um ensaio de fase 3 multicêntrico japonês (JCOG1907, estudo MONA LISA), atualmente em andamento com mais de 1.000 pacientes, foi desenhado especificamente para testar se a via robótica é superior à laparoscópica em segurança e desfechos oncológicos — o próprio desenho desse estudo reflete o consenso atual de que essa superioridade ainda não está estabelecida.11

Na prática, a escolha entre laparoscopia e robótica não deve ser guiada pela expectativa de um resultado oncológico superior de uma sobre a outra, mas por fatores como a facilidade da dissecção linfonodal, o perfil do paciente, o tempo cirúrgico, o custo e a experiência da equipe com cada tecnologia.

Quimioterapia perioperatória: o padrão atual

Para tumores localmente avançados e ressecáveis, a cirurgia isolada não é mais o padrão de cuidado. O estudo FLOT4, publicado na Lancet, estabeleceu o esquema perioperatório com fluorouracil, leucovorina, oxaliplatina e docetaxel (FLOT) como superior ao regime anterior baseado em epirrubicina, cisplatina e fluorouracil, tornando-se o novo padrão internacional de tratamento.5

1

Quimioterapia neoadjuvante (FLOT)

Quatro ciclos administrados antes da cirurgia, com o objetivo de reduzir o volume tumoral e tratar precocemente a doença micrometastática.

2

Cirurgia com linfadenectomia D2

Ressecção com intenção curativa, gastrectomia subtotal ou total conforme a localização do tumor.

3

Quimioterapia adjuvante (FLOT)

Mais quatro ciclos após a recuperação cirúrgica, completando o esquema perioperatório e reduzindo o risco de recidiva.

Imunoterapia perioperatória: o avanço mais recente

Em 2025, o estudo MATTERHORN, publicado no New England Journal of Medicine, testou a adição do imunoterápico durvalumabe ao esquema FLOT perioperatório em pacientes com câncer gástrico ou da junção esofagogástrica ressecável.6

A sobrevida livre de eventos em 2 anos foi de 67,4% no grupo que recebeu durvalumabe associado ao FLOT, contra 58,5% no grupo que recebeu apenas FLOT (razão de risco 0,71; p < 0,001) — um resultado que já vem sendo discutido como um novo potencial padrão de tratamento perioperatório.6

Terapias-alvo para a doença avançada ou metastática

Quando o câncer gástrico já não é passível de cirurgia curativa, o tratamento sistêmico é hoje guiado pelos biomarcadores do tumor:

O que o paciente precisa saber

O câncer gástrico deixou de ser tratado apenas com cirurgia isolada. Hoje, o prognóstico depende de uma sequência bem coordenada entre quimioterapia perioperatória, cirurgia oncológica de qualidade — com linfadenectomia D2 adequada — e, cada vez mais, imunoterapia e terapias-alvo guiadas por biomarcadores.

Diante de sintomas gástricos persistentes, a investigação por endoscopia não deve ser adiada. E, uma vez confirmado o diagnóstico, o tratamento deve ser conduzido por uma equipe multidisciplinar com experiência estabelecida em oncologia cirúrgica do aparelho digestivo.

Prof. Dr. Edmond Le Campion
Cirurgião do Aparelho Digestivo · Especialista em Oncologia Cirúrgica Gástrica
Doutor pela USP · Professor Adjunto UFG · CRM-GO 13872 · RQE 6651
Doutorado FMUSP Professor UFG Cirurgia Oncológica Aparelho Digestivo Goiânia · Anápolis

Sintomas gástricos persistentes ou diagnóstico recente de câncer gástrico?

O Prof. Dr. Edmond Le Campion realiza avaliação e cirurgia oncológica do aparelho digestivo em Goiânia e Anápolis, com acompanhamento multidisciplinar completo.