O que é uma hérnia
Uma hérnia ocorre quando um órgão ou tecido abdominal se projeta através de um ponto fraco da parede muscular que normalmente o contém. É uma das condições cirúrgicas mais comuns do mundo: estima-se que mais de 20 milhões de operações de hérnia sejam realizadas globalmente todos os anos.1
As hérnias mais frequentes são a inguinal (na virilha), a umbilical (ao redor do umbigo) e a incisional (que surge sobre uma cicatriz de cirurgia anterior). Todas têm em comum uma característica importante: não desaparecem sozinhas e, na maioria dos casos, tendem a aumentar de tamanho com o tempo.
Uma hérnia não tratada não vai "voltar ao lugar" com exercício, faixa abdominal ou repouso. A única forma de correção definitiva é a cirurgia — a dúvida real não é "precisa operar?", mas "precisa operar agora?"
Toda hérnia precisa de cirurgia imediata?
Aqui está um ponto que costuma surpreender: para hérnias inguinais assintomáticas ou minimamente sintomáticas em homens, um estudo randomizado publicado no JAMA acompanhou 720 pacientes divididos entre cirurgia imediata e conduta expectante ("watchful waiting"). O resultado mostrou que adiar a cirurgia até o surgimento de sintomas mais significativos é uma estratégia segura, já que complicações agudas como encarceramento são raras nesse cenário.2
Isso não significa que a cirurgia deva ser evitada — significa que, em casos muito selecionados e bem acompanhados, não há urgência em operar uma hérnia que ainda não incomoda. Dito isso, a maioria dos pacientes que adia a cirurgia acaba precisando operar dentro de alguns anos, à medida que os sintomas progridem.2
Procure atendimento de urgência se a hérnia ficar dura, dolorosa e não reduzir mais (não "voltar" quando você se deita ou empurra suavemente), especialmente se vier acompanhada de náusea, vômito ou parada de eliminação de gases e fezes. Esses são sinais de encarceramento ou estrangulamento — uma emergência cirúrgica.
Quando a cirurgia eletiva é recomendada
- Dor ou desconforto que interfere nas atividades do dia a dia
- Crescimento progressivo do volume da hérnia
- Hérnias umbilicais e incisionais — que têm maior risco de complicação em relação às inguinais assintomáticas, e geralmente são tratadas de forma mais proativa
- Episódios prévios de dificuldade para reduzir a hérnia
Como é feita a cirurgia
O uso de tela cirúrgica é hoje o padrão de tratamento para a grande maioria das hérnias da parede abdominal em adultos, por reduzir significativamente a taxa de recidiva em comparação à sutura simples dos tecidos. A diretriz internacional mais recente sobre hérnias da virilha, atualizada em 2023, reúne recomendações de mais de 30 especialistas mundiais com foco em dois desfechos centrais: reduzir a recidiva e reduzir a dor crônica pós-operatória — hoje reconhecida como a complicação mais frequente e mais relevante a longo prazo.1
Cirurgia aberta (Lichtenstein)
Incisão local com colocação de tela sobre o defeito. Pode ser feita com anestesia local ou raquidiana, com recuperação previsível e custo mais acessível.
Videolaparoscopia (TEP/TAPP)
Acesso por pequenas incisões, com tela posicionada por dentro da parede abdominal. Menor dor pós-operatória e retorno mais rápido às atividades, especialmente vantajosa em hérnias bilaterais ou recidivadas.
Cirurgia robótica
Tecnologia mais recente, combina a precisão da via minimamente invasiva com maior destreza para reconstruções complexas da parede abdominal.
Escolha da técnica
Depende do tipo e tamanho da hérnia, histórico cirúrgico prévio e perfil do paciente — não existe uma técnica "melhor" universalmente, e sim a mais adequada para cada caso.
Recidiva e dor crônica: os desfechos que realmente importam
A diretriz internacional de hérnias reforça que o sucesso de uma cirurgia de hérnia não deve ser medido apenas pela ausência de complicações imediatas, mas por dois desfechos de longo prazo: a taxa de recidiva (a hérnia voltar a aparecer) e a dor crônica (persistente além de 3 meses da cirurgia), que juntas são os problemas mais frequentes após esse tipo de operação.1 Isso reforça por que a técnica cirúrgica, o tipo de tela e a experiência de quem opera fazem diferença real no resultado a longo prazo — não apenas na recuperação imediata.
Como é a recuperação
Na cirurgia videolaparoscópica, a maioria dos pacientes retoma atividades leves em poucos dias e esforços físicos plenos em 2 a 4 semanas. Na cirurgia aberta, a recuperação costuma ser um pouco mais lenta, mas ainda assim previsível. Em ambos os casos, evitar esforço físico intenso nas primeiras semanas é importante para reduzir o risco de recidiva precoce.
O acompanhamento pós-operatório permite identificar precocemente qualquer sinal de complicação e orientar o retorno gradual às atividades habituais.
Professor Adjunto e Chefe do Departamento de Cirurgia — UFG · CRM-GO 13872 · RQE 6651
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