O que é uma hérnia

Uma hérnia ocorre quando um órgão ou tecido abdominal se projeta através de um ponto fraco da parede muscular que normalmente o contém. É uma das condições cirúrgicas mais comuns do mundo: estima-se que mais de 20 milhões de operações de hérnia sejam realizadas globalmente todos os anos.1

As hérnias mais frequentes são a inguinal (na virilha), a umbilical (ao redor do umbigo) e a incisional (que surge sobre uma cicatriz de cirurgia anterior). Todas têm em comum uma característica importante: não desaparecem sozinhas e, na maioria dos casos, tendem a aumentar de tamanho com o tempo.

Uma hérnia não tratada não vai "voltar ao lugar" com exercício, faixa abdominal ou repouso. A única forma de correção definitiva é a cirurgia — a dúvida real não é "precisa operar?", mas "precisa operar agora?"

Esquema ilustrativo do defeito de hérnia inguinal direta, mostrando o ponto de fragilidade da parede abdominal e as estruturas do canal inguinal — material didático do Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgião especialista em hérnia em Goiânia e Anápolis.
Esquema do defeito de uma hérnia inguinal direta (2): o ponto de fragilidade da parede posterior do canal inguinal, região reforçada pela tela durante a cirurgia.
Fotografia intraoperatória de videolaparoscopia mostrando a região inguinal dissecada durante correção de hérnia inguinal direta — cirurgia realizada pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgião hepatobiliar e do aparelho digestivo em Goiânia.
Visão por videolaparoscopia da região inguinal dissecada: o defeito da hérnia inguinal direta corresponde à área demarcada no esquema (1). Caso do acervo do Prof. Dr. Edmond Le Campion.

Toda hérnia precisa de cirurgia imediata?

Aqui está um ponto que costuma surpreender: para hérnias inguinais assintomáticas ou minimamente sintomáticas em homens, um estudo randomizado publicado no JAMA acompanhou 720 pacientes divididos entre cirurgia imediata e conduta expectante ("watchful waiting"). O resultado mostrou que adiar a cirurgia até o surgimento de sintomas mais significativos é uma estratégia segura, já que complicações agudas como encarceramento são raras nesse cenário.2

Isso não significa que a cirurgia deva ser evitada — significa que, em casos muito selecionados e bem acompanhados, não há urgência em operar uma hérnia que ainda não incomoda. Dito isso, a maioria dos pacientes que adia a cirurgia acaba precisando operar dentro de alguns anos, à medida que os sintomas progridem.2

Quando a cirurgia deixa de ser eletiva

Procure atendimento de urgência se a hérnia ficar dura, dolorosa e não reduzir mais (não "voltar" quando você se deita ou empurra suavemente), especialmente se vier acompanhada de náusea, vômito ou parada de eliminação de gases e fezes. Esses são sinais de encarceramento ou estrangulamento — uma emergência cirúrgica.

Quando a cirurgia eletiva é recomendada

Como é feita a cirurgia

O uso de tela cirúrgica é hoje o padrão de tratamento para a grande maioria das hérnias da parede abdominal em adultos, por reduzir significativamente a taxa de recidiva em comparação à sutura simples dos tecidos. A diretriz internacional mais recente sobre hérnias da virilha, atualizada em 2023, reúne recomendações de mais de 30 especialistas mundiais com foco em dois desfechos centrais: reduzir a recidiva e reduzir a dor crônica pós-operatória — hoje reconhecida como a complicação mais frequente e mais relevante a longo prazo.1

Cirurgia aberta (Lichtenstein)

Incisão local com colocação de tela sobre o defeito. Pode ser feita com anestesia local ou raquidiana, com recuperação previsível e custo mais acessível.

Videolaparoscopia (TEP/TAPP)

Acesso por pequenas incisões, com tela posicionada por dentro da parede abdominal. Menor dor pós-operatória e retorno mais rápido às atividades, especialmente vantajosa em hérnias bilaterais ou recidivadas.

Cirurgia robótica

Tecnologia mais recente, combina a precisão da via minimamente invasiva com maior destreza para reconstruções complexas da parede abdominal.

Escolha da técnica

Depende do tipo e tamanho da hérnia, histórico cirúrgico prévio e perfil do paciente — não existe uma técnica "melhor" universalmente, e sim a mais adequada para cada caso.

Marcação dos portais de videolaparoscopia para correção de hérnia inguinal com tela — planejamento cirúrgico do Prof. Dr. Edmond Le Campion, cirurgião especialista em hérnia em Goiânia e Anápolis.
Marcação pré-operatória dos portais de videolaparoscopia (dois de 10mm e um de 5mm) para a correção da hérnia com tela — planejamento realizado pelo Prof. Dr. Edmond Le Campion.

Recidiva e dor crônica: os desfechos que realmente importam

A diretriz internacional de hérnias reforça que o sucesso de uma cirurgia de hérnia não deve ser medido apenas pela ausência de complicações imediatas, mas por dois desfechos de longo prazo: a taxa de recidiva (a hérnia voltar a aparecer) e a dor crônica (persistente além de 3 meses da cirurgia), que juntas são os problemas mais frequentes após esse tipo de operação.1 Isso reforça por que a técnica cirúrgica, o tipo de tela e a experiência de quem opera fazem diferença real no resultado a longo prazo — não apenas na recuperação imediata.

Como é a recuperação

Na cirurgia videolaparoscópica, a maioria dos pacientes retoma atividades leves em poucos dias e esforços físicos plenos em 2 a 4 semanas. Na cirurgia aberta, a recuperação costuma ser um pouco mais lenta, mas ainda assim previsível. Em ambos os casos, evitar esforço físico intenso nas primeiras semanas é importante para reduzir o risco de recidiva precoce.

O acompanhamento pós-operatório permite identificar precocemente qualquer sinal de complicação e orientar o retorno gradual às atividades habituais.

Prof. Dr. Edmond Le Campion
Cirurgião Geral e do Aparelho Digestivo · Doutor pela FMUSP/USP
Professor Adjunto e Chefe do Departamento de Cirurgia — UFG · CRM-GO 13872 · RQE 6651
Doutorado FMUSP Professor UFG Cirurgia Minimamente Invasiva Goiânia · Anápolis

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