Um tumor pequeno, um fígado comprometido — e agora?

Imaginemos um paciente de 61 anos, portador de cirrose hepática por hepatite C, em acompanhamento regular com ultrassonografia semestral. Em uma das consultas de rotina, detecta-se um nódulo de 2 cm no segmento VI do fígado, com padrão vascular típico de carcinoma hepatocelular à ressonância magnética. A questão que se coloca imediatamente é: este paciente tem indicação cirúrgica?

A resposta, neste caso específico, provavelmente é não — ao menos não de imediato. A cirrose avançada compromete a reserva funcional do fígado, tornando a ressecção de alto risco. Entretanto, perceba: isso não significa que o tumor não pode ser tratado com intenção curativa. É precisamente aqui que a ablação térmica — por radiofrequência ou por micro-ondas — entra como protagonista no arsenal terapêutico moderno.1

"A ablação térmica representa uma mudança de paradigma no tratamento do câncer hepático: ela nos permite tratar tumores com intenção curativa em pacientes que antes seriam considerados inoperáveis — com menor morbidade e recuperação significativamente mais rápida."

O que é ablação térmica?

A ablação térmica é um procedimento minimamente invasivo que utiliza energia para gerar calor localizado dentro do tumor, destruindo as células neoplásicas por necrose coagulativa. É realizada com a introdução de uma agulha-eletrodo diretamente no tumor — guiada por ultrassom ou tomografia computadorizada — sem necessidade de incisão cirúrgica convencional.

As duas técnicas mais utilizadas são a ablação por radiofrequência (ARF) e a ablação por micro-ondas (AMO). Ambas geram calor suficiente para destruir o tumor, mas por mecanismos físicos diferentes — e essa distinção tem implicações clínicas relevantes que o paciente precisa compreender.

Ablação por radiofrequência (ARF)

A radiofrequência foi a primeira técnica de ablação térmica a ser amplamente adotada e permanece como referência histórica na literatura. Ela utiliza corrente elétrica alternada de alta frequência para agitar íons nos tecidos, gerando calor por fricção. É uma técnica bem estabelecida, com décadas de dados de segurança e eficácia acumulados.

Sua principal limitação é o chamado "efeito sumidouro de calor" (heat sink effect): quando o tumor está próximo a vasos sanguíneos de grande calibre, o fluxo sanguíneo dissipa o calor gerado, reduzindo a eficácia da ablação e aumentando o risco de recidiva local.2

Ablação por micro-ondas (AMO)

A ablação por micro-ondas é uma tecnologia mais recente e tem ganho protagonismo crescente na literatura científica. Ela utiliza ondas eletromagnéticas para agitar moléculas de água nos tecidos, gerando calor de forma mais rápida e uniforme — e, crucialmente, com menor susceptibilidade ao efeito sumidouro de calor.2

Isso representa uma vantagem prática importante: tumores localizados próximos a vasos hepáticos de maior calibre — situação relativamente comum na prática clínica — podem ser tratados com maior eficácia pela AMO do que pela ARF. Além disso, a AMO permite atingir temperaturas mais elevadas em menor tempo, reduzindo a duração do procedimento.

Radiofrequência ou micro-ondas: o que a evidência diz?

Esta é a questão que todo paciente com tumor hepático merece ter respondida com honestidade intelectual — e a resposta, baseada nas melhores evidências disponíveis, é mais nuançada do que muitos esperam.

Uma metanálise publicada em 2024 comparando ARF e AMO no tratamento do carcinoma hepatocelular, incluindo ensaios clínicos randomizados, demonstrou que a AMO resultou em menores taxas de progressão tumoral local e maiores taxas de ablação completa em comparação com a ARF.3 Entretanto, as taxas de sobrevida global e de sobrevida livre de doença não diferiram significativamente entre as duas técnicas.

De forma semelhante, em relação às metástases hepáticas, uma revisão sistemática publicada em 2024 reunindo sete estudos com mais de 800 pacientes não identificou diferença estatisticamente significativa entre ARF e AMO em termos de sobrevida livre de doença e complicações pós-operatórias.4

Perceba o que esses dados nos ensinam: a escolha entre radiofrequência e micro-ondas não deve ser baseada em modismos ou na simples disponibilidade do equipamento, mas sim nas características individuais de cada tumor — sua localização, tamanho, relação com estruturas vasculares — e na experiência da equipe que realiza o procedimento.

Ablação por Radiofrequência

  • Técnica mais estabelecida — maior volume de dados históricos
  • Eficaz para tumores ≤ 3 cm distantes de grandes vasos
  • Susceptível ao efeito sumidouro de calor
  • Tempo de ablação geralmente maior
  • Amplamente disponível em centros especializados

Ablação por Micro-ondas

  • Tecnologia mais recente — evidências crescentes
  • Menor susceptibilidade ao efeito sumidouro de calor
  • Vantagem em tumores próximos a vasos hepáticos
  • Ablação mais rápida e temperaturas mais elevadas
  • Menor taxa de progressão local em alguns estudos

Quando a ablação é indicada?

A ablação térmica está indicada em situações específicas, definidas por critérios clínicos e oncológicos precisos:

⚠️ Ablação não substitui a cirurgia em todos os casos

Em pacientes com função hepática preservada e tumor ressecável, a cirurgia ainda oferece resultados oncológicos superiores em tumores maiores. A escolha entre ablação e ressecção deve ser individualizada por uma equipe multidisciplinar experiente.

Como é o procedimento e a recuperação?

A ablação é realizada sob anestesia geral ou sedação profunda, em ambiente hospitalar. Com guia de imagem em tempo real — ultrassom ou tomografia — o cirurgião posiciona uma agulha de precisão milimétrica diretamente no tumor. O procedimento dura em média 30 a 60 minutos, dependendo do número e tamanho das lesões tratadas.

A recuperação é notavelmente mais rápida do que após a cirurgia convencional. A maioria dos pacientes recebe alta hospitalar em 24 a 48 horas e retorna às atividades habituais em poucos dias. Dor local leve e febre baixa nos primeiros dias são esperadas e controladas com medicação simples.

O acompanhamento pós-ablação é feito com tomografia ou ressonância magnética em 4 a 6 semanas, para confirmar a necrose completa do tumor e planejar o seguimento oncológico.

Referências bibliográficas

1. Villanueva A. Hepatocellular Carcinoma. New England Journal of Medicine. 2019;380(15):1450-1462. DOI: 10.1056/NEJMra1713263.
2. Dou Z, Lu F, Ren L, Song X, Li B, Li X. Efficacy and safety of microwave ablation and radiofrequency ablation in the treatment of hepatocellular carcinoma: a systematic review and meta-analysis. Medicine (Baltimore). 2022;101(30):e29321. DOI: 10.1097/MD.0000000000029321.
3. Shaqran TM, Alharbi J, Al-Hunbusi SK, et al. Comparison of Radiofrequency Ablation and Microwave Ablation for the Management of Hepatocellular Carcinoma: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Cureus. 2024;16:e67938. DOI: 10.7759/cureus.67938.
4. Li Z, Yan T, Cai X. Comparative efficacy of microwave ablation and radiofrequency ablation for treating metastatic liver cancer: a systematic review and meta-analysis. Frontiers in Oncology. 2024;14:1473780. DOI: 10.3389/fonc.2024.1473780.

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A decisão entre ablação, cirurgia ou transplante exige avaliação individualizada por especialista. Atendo em Goiânia e Anápolis, com disponibilidade para teleconsulta em todo o Brasil.

Prof. Dr. Edmond Le Campion

Cirurgião Geral e do Aparelho Digestivo · Doutor pela FMUSP/USP
Fellowship em Transplante de Fígado e Pâncreas — UNIFESP
Professor Adjunto e Chefe do Departamento de Cirurgia — UFG

CRM-GO 13872 · RQE 6651

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.